Arquivo mensal: outubro 2014

SOBRE ARTE, RECICLAGEM E CHIPS ELETRÔNICOS NA ÉPOCA DA COMPRESSÃO DO TEMPO

Por Fernando José Pereira

1.
A sociedade pós-industrial, em que vivemos gere a sua existência na base da
velocidade. Esta é uma noção relativa e enquadra-se dentro dos fatores
definidores do conceito de época, aqui entendida como período de tempo
pontualizado por acontecimentos que por similitude se agrupam, dando
lugar a partições temporais que instauram continuidade no correr da
história.

A noção de velocidade revela-se fundamental para a compreensão da
extensão temporal de uma época. Se a limitação temporal é difusa,
podemos, contudo, definir parâmetros que singularizem um determinado
momento histórico. Um, fundamental, a considerar é este da velocidade.
Podem-se levantar questões de rigor na datação de uma época, mas não
devemos deixar de admitir que objetivamente, hoje, a nossa relação com a
velocidade se apresenta de uma forma completamente diversa de, por
exemplo, o princípio do século. A velocidade contemporânea transfigura a
realidade temporal comprimindo-a, vivemos à velocidade do chip
eletrônico, tornando um conceito como o de efêmero altamente relativo.

Uma análise não demasiado aprofundada permite verificar que no mundo
da eletrônica a duração da vida dos componentes se torna cada vez mais
efêmera. A revista Macworld de Setembro de 1996 anunciava uma linha de
computadores em que se atingia a velocidade de 180Mhz… a mesma
Macworld de Fevereiro de 1997 já fazia o anúncio dos novas máquinas a
300Mhz…no corrente ano de 1998 todos estes números já estão ligados ao
passado, fala-se agora de 1000mhz a atingir no ano 2000…a relatividade do
tempo acentua-se no fenômeno da sua compressão, refere Mario Perniola,
num texto de 1994, a este respeito: “O problema põe-se de modo
verdadeiramente inquietante só a partir do momento em que passado e
futuro coincidem, como acontece no filme Jurassic Park de Steven Spielberg:
uma pré-história artificialmente recriada e um futuro de ficção científica já
realizado encontram-se e transitam um para o outro, criando um presente
em que coabitam os monstros pré-históricos e as tecnologias mais
sofisticadas. O enigma nasce justamente do colapso tanto do passado
quanto do futuro, num presente ambíguo e problemático ao máximo grau.”.
As noções originais de efêmero e de época dissolvem-se apressadamente. Já
nem um dia resta à larva (1) para olhar em direção ao futuro, depois de se
despojar do passado, assim como a noção grega de época: epoché – pausa
num movimento – deixa de ter significado pois o antes e o depois se diluem
num presente aparentemente perpétuo.
É como constatação de uma realidade – a nossa – que se apresenta a
velocidade contemporânea, tudo se encontra pré-determinado por
questões de tempo e pontualidade, sendo que estas duas noções se
tornaram como que núcleo central que assimila com a sua força
gravitacional todas as restantes formas de estar, tornando-as satélites em
órbita mais ou menos alargada mas totalmente dependentes desta força
imanada do centro. 21

Materiais, idéias, projetos, tudo é realizado em função de uma mesma
constante: o caráter cada vez mais efêmero da sua existência,
transfigurando decisivamente uma sociedade de bens adquiridos (2) numa
sociedade de bens canibalizados no sentido em que é a própria sociedade
que os produz, que de uma forma perfeitamente autofágica os destrói, sem
existir a possibilidade de adquirir o estatuto de propriedade, por ausência
física de espaço de tempo. A sociedade de consumo reinventa-se
diariamente para dar resposta a estes problemas, a compressão do tempo
provoca grandes distorções produtivas por inadaptação temporal existente
entre objeto produzido e objeto destruído.
Interessa, então, refletir sobre a questão da reciclagem. Talvez a mesma
questão colocada de outra forma, isto é, a vida dos objetos torna-se mais
curta e efêmera quanto mais aprofundado científica e economicamente
estiver o fenômeno do reciclar. O anátema medieval de “pó és, ao pó
voltarás” transfigura-se contemporaneamente nas vidas curtas mas
numerosas que podem atingir os objetos nos dias que correm. Mais uma vez
é a efemeridade dos próprios materiais que se coloca em causa: o “antes” e
o “depois” confirmam-se simultaneamente no objeto reciclado. Este não
ocupa lugar na história pois não possui identidade, afirma-se como uma
espécie de espelho que reflete num determinado momento a forma que se
lhe depara. Esta seta direccionada em círculo projeta-se como metáfora pós-
moderna, opondo-se decisivamente ao sentido único com direção ao futuro
projetado pela modernidade, na sua busca incessante de novo e de
amanhãs melhores, paradigma fundamental para a compreensão do
momento atual.
2.

“Do ponto de vista do que é essencial na arte, ela é a-histórica. Inserir a obra
na trama da vida histórica não abre nenhuma perspectiva sobre a sua
natureza mais profunda.”
Walter Benjamin em carta a Florens Christian Rang, datada de Dezembro de
1923.

No mesmo momento histórico em que a carta foi escrita, encontrava-se em
pleno desenvolvimento o conceito de ready-made inventado por Marcel
Duchamp. O ready-made radicaliza a discussão sobre os limites da arte. Com
a introdução de objetos de uso comum transfigurados em obra de arte, o
artworld expandia as suas fronteiras até lugares ainda não habitados.

O ready-made duchampiano apresenta-se como antecedente direto para
uma nova categoria de objetos que vou designar por already used/for use
(em inglês por analogia com o ready-made), embora com pretensões
distanciadas, uma vez que, o ready-made instaura uma nova significação, o
urinol transfigura-se em fonte, ao atravessar a fronteira inaugura uma nova
vida como objeto único.
“…o ready-made não pode prescindir da inscrição do nome, pelo menos do
nome do autor, se quiser forçar a fronteira da instituição arte. O encontro
de que fala Duchamp é na realidade o contato proporcionado por essa
mesma fronteira: o encontro de um objeto de produção industrial com os
mecanismos de enunciação da arte. A maior parte dos ready-made de
Duchamp comporta, contudo, para além da assinatura, uma inscrição, ou 22

um título.” (Cruz, 1990). Ao contrário, os novos objetos, introduzem-se na
instituição arte sem alteração, aparecendo como morfemas constituintes de
um todo significante, é esta condição que os faz manter inalterável a sua
relação serial com a industria. A tradução à letra apresenta-nos a seguinte
dicotomia: já usado/ainda por usar. A analogia com o fenômeno da
reciclagem é evidente, apresenta-se de um modo objetivo um “antes” e um
“depois”, logo a existência de um tempo que medeia estas duas noções, ou
então de acordo com o significado de época: uma pausa num movimento. É
esta pausa, este espaço de tempo que nos interessa estudar.

A existência objetual no mundo que nos rodeia é de algum modo
testemunha iconográfica de um determinado tempo (época) histórico. A
passagem fronteiriça criada pelo artístico e não artístico estabelece no
objeto alteridades que provocam uma descontinuidade vivêncial, passando
a usufruir de uma carga carregada de expectativas de sentido que
anteriormente não possuía. Esta passagem constitui-se como uma espécie
de exílio (vivências estranhas e em lugares exteriores ao habitualmente
vivido, mas com um espaço de tempo que apesar de indeterminado, é
limitado) que autonomiza semanticamente o objeto, passando este a
recolher todas as características definidoras da obra de arte. É neste
momento que o objeto deixa de pertencer à história para se tornar a-
histórico. “Não há história de arte” diz Benjamin, acrescentando logo a
seguir: “Habitualmente, nas investigações de história da arte, desemboca-se
apenas numa história de conteúdo ou numa história da forma, para as quais
as obras de arte se limitam a fornecer exemplos, modelos, de certa maneira:
uma história das próprias obras não é de nenhum modo tida em
conta”(Benjamin, 1923). Será exatamente esta passagem por um outro
território, por parte do objeto, que nos interessa se entendermos que o
próprio conceito de passagem (conceito que muito interessou Benjamin)
tem um espaço temporal delimitado por um início e um fim, logo por um
efemeridade latente.
O objeto already used/for use afirma-se, desta forma, como alternativa
possível à criação/construção de objetos artísticos no interior do mundo da
arte, que em claro paralelismo com a realidade se encontra profusamente
inundado. Diz Douglas Wuebler: “O mundo está cheio de mais ou menos
objetos interessantes; eu gostaria de adicionar mais a ele”, referindo-se
obviamente a esta situação e optando como solução pelo zero absoluto.
Introduzindo a lógica exterior da reciclagem como conceito produtor de
soluções (pelo menos aparentes) e como vivência contemporânea, a
proposta desta noção de objeto artístico transitável articula-se
perfeitamente com o conceito de efêmero, não um efêmero formal (no
sentido de que apenas a forma se altera) mas radicalizando mais a noção
para considerações conceituais de legitimação e recepção.
1.Segundo a lenda grega, a palavra efêmero deriva de uma larva que
demoraria um ano a desenvolver a sua forma para se tranformar em
borboleta. Com a sua forma adulta reproduz-se e morre apenas no espaço
de tempo de um dia.
2. O termo usa-se, aqui, como interpretação semântica do sentido de
propriedade, relação que se estabelece entre o proprietário e o objeto e que
se cimenta no fator tempo.
(1998)

Referências Bibliográficas:

BLUMENBERG, Hans: As épocas do conceito de época, in “The Legitimacy of
Modernity”, MIT Press, Massachussets. 1982.

CRUZ, Maria Teresa: A obra de arte. Entre dois nomes, in “Comunicação e
Linguagem” nº 10/11, Lisboa. 1990.

PERNIOLA, Mario: Enigmas – O Momento Egípcio na Sociedade e na Arte,
Bertrand Editora, Lisboa. 1994.

GUERREIRO, António: As fantasmagorias da História, in catálogo da
exposição “mais tempo menos história”, Fundação de Serralves, Porto,
1996.

WEBLER, Douglas: in catálogo da exposição “Jetlag”, Lisboa. 1996.

Fonte: Virose (www.virose.pt).

(Arquivo Rizoma)

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