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A AMÉRICA É UMA RELIGIÃO

Por: George Monbiot

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Agora, os líderes dos EUA se consideram sacerdotes de uma missão divina para livrar o mundo de seus demônios.

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“A morte de Uday e Qusay”, disse o comandante das forças terrestres no Iraque para os repórteres na quarta-feira, “vai ser, definitivamente, uma virada para a resistência”. Bem, foi uma virada, mas infelizmente não do tipo que ele imaginava. No dia em que ele fez essa declaração, insurgentes iraquianos mataram um soldado dos EUA e feriram outros seis. No dia seguinte, mataram outros três; durante o fim de semana, assassinaram cinco e feriram sete. Ontem, massacraram mais um e feriram três. Essa foi a pior semana para os soldados dos EUA no Iraque,

desde que George Bush declarou que a guerra tinha acabado.

Poucas pessoas acreditam que a resistência naquele país esteja sendo coordenada por Saddam Hussein e sua nociva família, ou de que chegará a um final quando eles forem mortos. Mas entre essas poucas pessoas parecem estar incluídos os comandos civis e militares das forças armadas dos EUA. Pela centésima vez, desde que os EUA invadiram o Iraque, os prognósticos feitos por aqueles que têm acesso à inteligência, revelaram-se menos do que confiáveis do que os prognósticos feitos por aqueles sem acesso a ela. E, pela centésima vez, a inexatidão das previsões oficiais tem sido atribuída a “falhas na inteligência”.

A explicação está ficando cada vez mais desgastada. Será que esperam que acreditemos que os membros dos serviços de segurança dos EUA são as únicas pessoas que não podem ver que muitos iraquianos querem se ver livres do exército dos EUA, com o mesmo fervor como queriam se livrar de Saddam Hussein? O que está faltando ao Pentágono e à Casa Branca não é inteligência (ou, pelo menos, do tipo de inteligência que estamos considerando aqui), mas receptividade. Não há falha de informação, mas falha de ideologia.
Para entendermos porque a falha persiste, precisamos antes

compreender a realidade, a qual tem sido raramente discutida na

imprensa. Os EUA não são mais apenas uma nação. Agora, são uma religião. Seus soldados foram para o Iraque para liberar o povo não somente de seu ditador, seu petróleo e sua soberania, mas também para liberá-los das trevas. Como George Bush disse às suas tropas no dia em que anunciou a vitória: “Onde quer que vocês se dirijam, vocês levam uma mensagem de esperança — uma mensagem que é antiga e sempre nova. Nas palavras do profeta Isaías, “Para os cativos, ‘que saiam’, e para aqueles na escuridão, “que sejam livres”.

De forma que os soldados americanos não são mais somente

combatentes terrestres; eles se tornaram missionários. Não estão mais simplesmente matando os inimigos; estão expelindo os demônios. As pessoas que reconstruíram os rostos de Uday e Qusay Hussein, descuidadamente se esqueceram de restaurar um par de pequenos chifres em cada sobrancelha, mas a idéia de que esses eram oponentes que pertenciam a outro tipo de reino foi transmitida, todavia. Como todos os que enviam missionários ao exterior, os altos sacerdotes da América

não podem conceber que os infiéis possam resistir por meio de seu próprio livre arbítrio; quando se recusam a se converter, é obra do demônio, em seu disfarce atual de ex-ditador do Iraque.

Como Clifford Longley demonstra em seu fascinante livro ‘Chosen People’ (Povo Escolhido), publicado no ano passado, os pais fundadores dos EUA, embora às vezes professassem de outra forma, sentiam que estavam sendo guiados por um propósito divino. Thomas Jefferson argumentava que o Grande Selo dos Estados Unidos deveria representar os israelitas,

“conduzidos por uma nuvem de dia e por um pilar de fogo à noite”.
George Washington proclamava, em seu discurso de inauguração, que cada passo em direção à independência era “caracterizado por alguma marca da providência”. Longley argumenta que a formação da identidade americana foi parte de um processo de “supersessão” (“supersession”). A igreja Católica Romana reivindicava que tinha suplantado os judeus como povo eleito, visto que os judeus tinham sido repudiados por Deus. Os protestantes ingleses acusaram os católicos de traírem a fé, e sustentavam que tinham se tornado os bem amados do Senhor.

Os revolucionários americanos acreditavam que os ingleses, por sua vez, tinham quebrado o pacto: os americanos, agora, tinham se tornado o povo escolhido, tendo o dever divino de entregar o mundo ao domínio de Deus. Há seis semanas, como para demonstrar que essa crença persiste,  George Bush lembrou-se de um comentário de Woodrow Wilson. “A

América”, ele citou, “tem em si uma energia espiritual com relação à qual nenhuma outra nação pode contribuir, para a liberação da humanidade”.
Gradualmente, esta noção de eleição divina foi permeada com uma outra idéia, ainda mais perigosa. Não só os americanos são o povo escolhido de Deus; a América em si mesma é agora percebida como um projeto divino. No seu discurso presidencial de despedida, Ronald Reagan falou de seu país como da “cidade que brilha no topo da colina”, uma referência ao Sermão da Montanha. Mas o que Jesus estava descrevendo não era a

Jerusalém temporal, mas o reinado dos céus. No relato de Reagan, não somente o reino de Deus podia ser encontrado nos Estados Unidos da América, como também a esfera do inferno podia agora ser localizada na esfera terrestre: o “império do mal” da União Soviética, contra o qual os Seus santos guerreiros deveriam ser lançados.

Desde os ataques a Nova York, essa noção da ‘América, A Divina’ tem sido estendida e refinada. Em dezembro de 2001, Rudy Giuliani, o prefeito da cidade, fez seu principal discurso na St Paul’s Chapel, perto do local das torres destruídas. Proclamou: “Tudo o que importa é que vocês abracem

a América e compreendam seus ideais e tudo aquilo de que se trata. Abraham Lincoln costumava dizer que o teste do americanismo de um indivíduo era… o quanto ele acreditava na América. Porque somos como uma religião, na realidade. Uma religião secular”.

A capela na qual ele fez seu discurso tinha sido consagrada não só por Deus, como também pelo fato de que George Washington tinha, um dia, rezado lá. Agora, disse ele,

“era uma terra consagrada para que as pessoas pudessem sentir o que era a América”. Os Estados Unidos da América não precisam mais clamar por Deus; são Deus, e aqueles que forem ao exterior difundir a luz, o fazem em nome de um domínio divino. A bandeira se tornou tão sagrada quanto a Bíblia; o nome da nação tão sagrado quanto o nome de Deus. A

presidência está se tornando um sacerdócio.
Portanto, aqueles que questionam a política externa de George Bush não são mais apenas meros críticos; são blasfemadores, ou “anti-americanos”. Os estados estrangeiros que procuram mudar essa política estão perdendo o próprio tempo: pode-se negociar com políticos; não se pode negociar com sacerdotes. Os EUA têm uma missão divina, como sugeriu Bush em janeiro: “defender…as esperanças de toda a humanidade”, e

expurgar todos os que anseiam por algo que não seja o American way of life.
Os perigos da divindade nacional não precisam de maiores explicações. O Japão foi à guerra nos anos 30 convencido, como George Bush, de que detinha a missão enviada pelos céus de “liberar” a Ásia e estender o domínio do seu império divino. Seria, como tinha previsto o teórico fascista Kita Ikki: “levar a luz às trevas do mundo todo”. Aqueles que procuram arrastar os céus para a terra estão destinados somente a engendrar um inferno.
The Guardian

29 de julho de 2003
Os livros de George Monbiot, ‘Poisoned Arrows’ (Flechas Envenenadas) e  No Man’s Land’ (Terra de Ninguém), foram republicados essa semana pela Green Books.
© Guardian Newspapers Limited 2003
Tradução do Site Imediata (webmaster@imediata.com)
Fonte: Agência Imediata de Informações (www.imediata.com).

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